Uma tarde, numa sala do bairro de Catumbi, no Rio de Janeiro, três pessoas estavam em silêncio. Garcia, um jovem médico, estava em pé. Fortunato, o dono da casa, olhava para o teto. Maria Luísa, a mulher de Fortunato, costurava perto da janela, com os dedos ainda tremendo. Pouco antes, alguma coisa feia e grave tinha acontecido. Para entender, precisamos voltar ao começo da história.
Em 1860, Garcia ainda estudava medicina. Um dia, ele viu Fortunato pela primeira vez, na porta de um hospital. Dias depois, encontrou o mesmo homem no teatro. A peça era um drama cheio de mortes e sofrimento, e Fortunato prestava muita atenção nas cenas de dor. Na saída, Garcia viu Fortunato bater com a bengala num cachorro que dormia na rua.
Algumas semanas depois, numa noite, alguns homens trouxeram um vizinho de Garcia, Gouvêa, ferido por uma faca. Logo apareceu Fortunato. Ele não conhecia o ferido, mas cuidou de tudo: pagou os carregadores, chamou o médico e ajudou no curativo. Segurava a bacia, a vela e os panos, sem medo do sangue. Garcia ficou impressionado. Fortunato olhava para o ferido com olhos claros, cor de chumbo, duros e frios. Ele parecia ter uns quarenta anos e tinha o rosto magro e pálido.
O vizinho ficou bom e foi agradecer a Fortunato. Mas Fortunato o recebeu mal, com impaciência, e depois riu dele. Garcia não entendia: como um homem tão generoso podia ser tão frio?
Algum tempo depois, Garcia, já médico, encontrou Fortunato de novo. Ficaram amigos. Fortunato tinha se casado com Maria Luísa, uma moça delicada de vinte e cinco anos, de olhos doces. Garcia percebeu que ela tinha um pouco de medo do marido.
Um dia, Garcia contou a Maria Luísa como Fortunato tinha ajudado o vizinho ferido. Ela ficou feliz e apertou a mão do marido. Garcia disse, brincando, que Fortunato era um ótimo enfermeiro e que um dia os dois podiam abrir uma casa de saúde juntos. Fortunato levou a ideia a sério, e logo abriram a casa de saúde. Fortunato cuidava de tudo: das compras, das contas e dos doentes. Ele trabalhava de dia e de noite e não tinha medo de nenhuma doença. Todos admiravam a dedicação dele.
Garcia jantava quase todos os dias na casa do casal. Pouco a pouco, ele se apaixonou por Maria Luísa, que vivia muito sozinha. Mas ele guardou esse amor em silêncio, por amizade a Fortunato. Maria Luísa percebeu tudo, mas também não disse nada.
Nessa época, Fortunato começou a estudar anatomia e fazia experiências com gatos e cachorros dentro de casa. Os gritos dos animais deixavam Maria Luísa doente. Ela pediu a Garcia para convencer o marido a parar, e Garcia conseguiu. Ele notou também que Maria Luísa tossia muito.