Ninguém sabia de onde tinha vindo aquele homem. O funcionário do correio só sabia o nome dele, Raimundo Flamel, porque estava escrito nas cartas. E eram muitas cartas! Quase todos os dias, o carteiro levava para a casa do desconhecido cartas do mundo inteiro, revistas em línguas estranhas, livros e pacotes.
Tubiacanga era uma cidade pequena e muito calma, no interior do Brasil. Um dia, o pedreiro Fabrício foi trabalhar na casa do novo morador. Quando voltou, todos na venda perguntaram:
— Que trabalho ele pediu?
— Vou fazer um forno — respondeu Fabrício. — Na sala de jantar!
A cidade ficou espantada. Um forno na sala de jantar! Nos dias seguintes, Fabrício contou que tinha visto na casa vidros esquisitos, facas sem corte e copos de farmácia. Muitas pessoas ficaram com medo. Uns diziam que ele fazia dinheiro falso. Outros diziam que ele era amigo do diabo.
Mas o farmacêutico Bastos acalmou a cidade. Bastos era um homem importante e respeitado. Ele disse que o desconhecido devia ser um sábio, um grande químico, que queria trabalhar em paz. Logo todos começaram a admirar o “doutor”. À tarde, ele passeava sozinho na beira do rio Tubiacanga e olhava a água, pensativo. Era muito gentil com as crianças.
Só uma pessoa não gostava dele: o capitão Pelino, professor e dono do jornal da cidade. Pelino se achava o homem mais sábio de Tubiacanga. Ele era especialista em gramática e corrigia o português de todo mundo. Para ele, Flamel era um rival.
— Vocês vão ver quem é esse sujeito! — dizia Pelino. — Um aventureiro, ou um ladrão fugido do Rio!
Mas ninguém acreditava. Flamel pagava as contas em dia, ajudava os pobres, e o farmacêutico tinha visto o nome dele numa revista de ciência.
Alguns anos depois, numa manhã, Flamel entrou na farmácia. Bastos ficou muito feliz. O sábio nunca visitava ninguém!
— Doutor, seja bem-vindo!
— Preciso falar com o senhor em particular — disse Flamel.
Os dois foram para uma salinha no fundo da farmácia. Flamel explicou:
— Eu fiz uma grande descoberta. Mas ainda não quero contar ao mundo. Preciso de três pessoas sérias e respeitadas para assistir a uma experiência e assinar um documento. Assim, ninguém vai roubar a minha descoberta.
— Claro! E qual é a descoberta?
— Eu sei fazer ouro.
— Ouro? — disse Bastos, de olhos arregalados.
— Sim, ouro. O senhor vai ser uma das testemunhas. Escolha as outras duas.
Bastos pensou e escolheu o coronel Bentes, um fazendeiro rico, e o tenente Carvalhais, o cobrador de impostos.
— O coronel é religioso? — perguntou Flamel. — Porque vamos trabalhar com ossos de mortos.
— Não, ele quase não acredita em Deus.
— Ótimo.
No domingo, os três homens foram à casa de Flamel e assistiram à experiência. Poucos dias depois, Flamel desapareceu, sem deixar nenhuma explicação.