O senhor quer contar no seu livro o que aconteceu comigo em 1860? Tudo bem. Mas só com uma condição: o senhor não pode publicar nada antes da minha morte. E não vai esperar muito. Os médicos dizem que eu tenho só mais alguns dias de vida. O senhor me pediu um documento humano. Aqui está.
Em 1859, eu tinha quarenta e dois anos e trabalhava para um padre de Niterói, um velho amigo de escola. Eu copiava os estudos dele. Um dia, o padre recebeu uma carta de um vigário do interior. O vigário procurava um enfermeiro paciente para cuidar de um coronel doente, o coronel Felisberto. O salário era bom. Eu aceitei logo, porque estava cansado de copiar textos em latim.
Quando cheguei à vila, ouvi más notícias. O coronel era um homem insuportável. Ninguém aguentava o seu mau humor, nem os amigos. Ele mudava mais de enfermeiro do que de remédio. Dois enfermeiros tinham levado socos dele. Mas eu disse que não tinha medo, e o vigário me pediu calma e caridade.
Encontrei o coronel na varanda, deitado numa cadeira. Ele tinha quase sessenta anos e estava muito doente: tinha um aneurisma, reumatismo e outros problemas. Primeiro, ele me olhou em silêncio, como um gato. Depois perguntou:
— Você é ladrão?
— Não, senhor.
Ele perguntou o meu nome: Procópio José Gomes Valongo. Achou o nome feio e decidiu me chamar só de Procópio. Eu aceitei tudo sem reclamar, e ele gostou de mim. Durante sete dias, vivemos uma lua de mel.
No oitavo dia, começou a vida de cão. Eu não dormia, ouvia insultos o dia inteiro e às vezes ria deles, para agradar ao doente. O coronel não era só mal-humorado. Ele era mau. Gostava da dor e da humilhação dos outros. Depois de três meses, eu queria ir embora.
Um dia, ele me bateu com a bengala. Fiz a mala na mesma hora. Mas o coronel veio ao meu quarto e pediu para eu ficar.
— Eu vou morrer logo, Procópio — dizia ele à noite. — Você tem que ir ao meu enterro e rezar na minha sepultura. Se não for, eu volto de noite para puxar as suas pernas! Você acredita em almas do outro mundo?
— Eu não!
— E por que não acredita, seu burro?
Ele parou de me bater, mas os insultos continuaram, cada vez piores. Eu era burro, camelo, idiota, tudo. O coronel não tinha família, e os amigos só faziam visitas curtas. Eu era a única pessoa para ouvir todos aqueles nomes. Muitas vezes quis ir embora, mas o vigário pedia para eu ficar mais um pouco. Eu não gastava nada e guardava todo o salário. Queria voltar para o Rio de Janeiro e gastar o dinheiro lá.
O coronel piorava e fez o testamento. Em agosto, eu decidi: ia embora no fim do mês, de qualquer jeito. Eu já não sentia pena dele. Dentro de mim havia ódio.