Chapitre 1 sur 3 · Original · Difficile · C1
O Suave Milagre (1/3)
Le Doux Miracle
Nesse tempo Jesus ainda se não afastara da Galilea e das doces, luminosas margens do Lago de Tiberíade:—mas a nova dos seus Milagres penetrara já até Enganim, cidade rica, de muralhas fortes, entre olivais e vinhedos, no país de Issachar.
Uma tarde um homem de olhos ardentes e deslumbrados passou no fresco vale, e anunciou que um novo Profeta, um Rabi formoso, percorria os campos e as aldeias da Galilea, predizendo a chegada do Reino de Deus, curando todos os males humanos. E emquanto descansava, sentado à beira da Fonte dos Vergeis, contou ainda que êsse Rabi, na estrada de Magdala, sarara da lepra o servo dum Decurião Romano só com estender sôbre êle a sombra das suas mãos; e que noutra manhã, atravessando numa barca para a terra dos Gerassénios, onde começava a colheita do bâlsamo, ressuscitara a filha de Jaira, homem considerável e douto que comentava os Livros na Sinagoga. E como em redor, assombrados, seareiros, pastores, e as mulheres trigueiras com a bilha no ombro, lhe perguntassem se êsse era, em verdade, o Messias da Judea, e se diante dêle refulgia a espada de fogo, e se o ladeavam, caminhando como as sombras de duas tôrres, as sombras de Gog e de Magog—o homem, sem mesmo beber daquela água tam fria de que bebera Josué, apanhou o cajado, sacudiu os cabelos, e meteu pensativamente por sob o Aqueduto, logo sumido na espessura das amendoeiras em flor. Mas uma esperança, deliciosa como o orvalho nos meses em que canta a cigarra, refrescou as almas simples: logo, por toda a campina que verdeja até Ascalon, o arado pareceu mais brando de enterrar, mais leve de mover a pedra do lagar: as crianças, colhendo ramos de anémonas, espreitavam pelos caminhos se alêm da esquina do muro, ou de sob o sicómoro, não surgiria uma claridade: e nos bancos de pedra, às portas da cidade, os vélhos, correndo os dedos pelos fios das barbas, já não desenrolavam, com tam sapiente certeza, os ditames antigos.
Ora então vivia em Enganim um vélho, por nome Obed, duma família pontifical de Samaria que sacrificara nas aras do Monte Ebal, senhor de fartos rebanhos e de fartas vinhas—e com o coração tam cheio de orgulho como o seu celeiro de trigo. Mas um vento árido e abrasado, êsse vento de desolação que ao mando do Senhor sopra das torvas terras de Assur, matara as reses mais gordas das suas manadas, e pelas encostas onde as suas vinhas se enroscavam ao olmo, e se estiravam na latada airosa, só deixara, em tôrno dos olmos e pilares despidos, sarmentos, cêpas mirradas, e a parra roída de crespa ferrugem. E Obed agachado à soleira da sua porta, com a ponta do manto sôbre a face, palpava a poeira, lamentava a velhice, ruminava queixumes contra Deus cruel.
Apenas ouvira falar dêsse novo Rabi da Galilea, que alimentava as multidões, amedrontava os demónios, emendava todas as desventuras—Obed, homem lido, que viajara na Fenícia, logo pensou que Jesus seria um dêsses feiticeiros, tam costumados na Palestina, como Apolónio, ou Rabi Ben-Dossa, ou Simão, o Subtil. Êsses, mesmo nas noites tenebrosas, conversam com as estrêlas, para êles sempre claras e fáceis nos seus segredos: com uma vara afugentam de sôbre as searas os moscardos gerados nos lôdos do Egipto: e agarram entre os dedos as sombras das árvores, que conduzem, como toldos benéficos, para cima das eiras, à hora da sésta. Jesus da Galilea, mais novo, com magias mais viçosas de-certo, se êle largamente o pagasse, sustaria a mortandade dos seus gados, reverdeceria os seus vinhedos. Então Obed ordenou aos seus servos que partissem, procurassem por toda a Galilea o Rabi novo, e com promessa de dinheiros ou alfaias o trouxessem a Enganim, no país de Assachar.
Os servos apertaram os cinturões de coiro—e largaram pela estrada das Caravanas, que, costeando o Lago, se estende até Damasco. Uma tarde, avistaram sôbre o poente, vermelho como uma romã muito madura, as neves finas do monte Hermon. Depois, na frescura duma manhã macia, o lago de Tiberíade resplandeceu diante dêles, transparente, coberto de silêncio, mais azul que o céu, todo orlado de prados floridos, de densos vergeis, de rochas de pórfiro, e de alvos terraços por entre os pomares, sob o vôo das rôlas. Um pescador que desamarrava preguiçosamente a sua barca duma ponta de relva, assombreada de aloendros, escutou, sorrindo, os servos. ¿O Rabi de Nazareth? Oh! desde o mês de Ijar, o Rabi descera, com os seus discípulos, para os lados para onde o Jordão leva as águas.
Os servos, correndo, seguiram pelas margens do rio, até adiante do vau, onde êle se estira num largo remanso, e descansa, e um instante dorme, imóvel e verde, à sombra dos tamarindos. Um homem da tríbu dos Essénios, todo vestido de linho branco, apanhava lentamente ervas salutares, pela beira da água, com um cordeirinho branco ao colo. Os servos humildemente saudaram-no porque o povo ama aqueles homens de coração tam limpo, e claro, e cândido como as suas vestes cada manhã lavadas em tanques purificados. ¿E sabia êle da passagem do novo Rabi da Galilea, que como os Essénios ensinava a doçura, e curava as gentes e os gados? O Essénio murmurou que o Rabi atravessara o Oásis de Engaddi, depois se adiantara para alêm...—Mas onde, "alêm?"—Movendo um ramo de flores roxas que colhera, o Essénio mostrou as terras de Alêm Jordão, a planície de Moab. Os servos vadearam o rio—e debalde procuraram Jesus, arquejando pelos rudes trilhos, até às fragas onde se ergue a cidadela sinistra de Makaur... No Pôço de Yakob repousava uma larga caravana, que conduzia para o Egipto mirra, especiarias e bâlsamos de Gilead: e os cameleiros, tirando a água com os baldes de coiro, contaram aos servos de Obed que em Gadara, pela lua nova um Rabi maravilhoso, maior que David ou Isaias, arrancara sete demónios do peito duma tecedeira, e que, à sua voz, um homem degolado pelo salteador Barabas, se erguera da sua sepultura e recolhera ao seu horto. Os servos, esperançados, subiram logo açodadamente pelo caminho dos Peregrinos até Gadara, cidade de altas tôrres, e ainda mais longe até às Nascentes da Amalha... Mas Jesus, nessa madrugada, seguindo por um povo que cantava e sacudia ramos de mimosa, embarcara no Lago, num batel de pesca, e à vela navegara para Magdala. E os servos de Obed descorçoados, de novo passaram o Jordão na Ponte das Filhas de Jacob. Um dia, já com as sandálias rôtas dos longos caminhos, pisando já as terras da Judea Romana, cruzaram um Fariseu sombrio, que recolhia a Efraim, montado na sua mula. Com devota reverência detiveram o homem da Lei. ¿Encontrara êle por acaso êsse Profeta novo da Galilea que, como um Deus passeando na terra, semeava milagres? A adunca face do Fariseu escureceu enrugada—e a sua cólera, retumbou como um tambor orgulhoso: