No tempo da escravidão no Brasil, muitas pessoas escravizadas fugiam. Elas não queriam essa vida, e às vezes apanhavam dos donos. Quando um escravo fugia, o dono colocava um anúncio no jornal. O anúncio dizia o nome do fugido, a roupa, os sinais do corpo e o bairro onde ele andava. Dizia também quanto dinheiro o dono ia pagar a quem trouxesse o escravo de volta. Por isso, existia uma profissão triste: pegar escravos fugidos.
Cândido Neves, ou Candinho, era um desses homens. Ele não gostava de trabalho fixo. Tentou ser tipógrafo, vendedor, carteiro, mas desistia sempre depois de poucas semanas. Quando se apaixonou por Clara, aprendeu a fazer móveis com um primo, mas aprendeu mal.
Clara era órfã, tinha vinte e dois anos e morava com a tia Mônica. As duas costuravam para ganhar a vida. Quando Clara viu Cândido num baile, sentiu que ele era o marido certo. Cândido tinha trinta anos. Eles se casaram onze meses depois. Foram morar numa casa pobre, com a tia Mônica.
O casal ria de tudo e queria muito um filho. A tia Mônica avisava:
— Se vocês tiverem um filho, vão morrer de fome.
— Nossa Senhora vai nos dar de comer — respondia Clara.
Logo Clara ficou grávida. Ela costurava mais do que nunca e fazia roupinhas para o bebê com pedaços de pano. A tia reclamava que Cândido não tinha um emprego certo.
— Eu tenho trabalho — dizia ele. — Às vezes passo semanas sem dinheiro, mas depois vem uma noite que paga tudo.
Nessa época, Cândido já tinha deixado os móveis e tinha começado a pegar escravos fugidos. Era um trabalho que ele achava bom: não precisava ficar sentado muitas horas. Só precisava de força, olhos atentos, paciência e um pedaço de corda. Ele lia os anúncios dos jornais e guardava tudo na memória. Quando via na rua uma pessoa com os sinais de um anúncio, seguia essa pessoa e a pegava de surpresa.
Mas logo apareceram muitos outros homens no mesmo trabalho. Cândido ganhava cada vez menos. As dívidas cresceram. A família comia pouco e tarde. Uma vez, Cândido pegou por engano um homem livre e apanhou dos parentes dele.
No último mês da gravidez, a tia Mônica deu um conselho terrível: levar o bebê para a Roda dos Enjeitados. A Roda era um lugar onde as famílias deixavam os filhos que não podiam criar.
— Isso nunca! — gritou Cândido, e deu um soco na mesa.
Nesse momento, alguém bateu na porta. Era o dono da casa. A família devia três meses de aluguel.
— Cinco dias, ou vocês vão para a rua! — disse ele.
Cândido procurou dinheiro emprestado e procurou escravos fugidos, mas não achou nada. Depois de cinco dias, a família teve que sair da casa. A tia Mônica conseguiu dois quartos emprestados nos fundos da casa de uma senhora rica. Dois dias depois, nasceu o bebê: um menino, como os pais queriam.