Capitolo 1 di 6 · A2 · Facile
Um defunto autor
Memorie postume di Brás Cubas
Eu não sou um autor que morreu. Sou um morto que virou autor. Para mim, o túmulo foi um novo berço. Por isso, posso contar a minha vida com toda a liberdade: os mortos não têm medo de ninguém.
Morri numa sexta-feira de agosto de 1869, na minha casa no bairro de Catumbi, no Rio de Janeiro. Eu tinha sessenta e quatro anos, era rico e solteiro. Morri de uma pneumonia. Onze amigos foram ao meu enterro. Chovia, e um deles fez um discurso bonito sobre mim.
Como eu fiquei doente? Por causa de uma ideia. Um dia, tive uma ideia genial: inventar um remédio contra a tristeza, o Emplasto Brás Cubas. O emplasto ia curar a melancolia de toda a humanidade. E, claro, ia deixar o meu nome famoso. Eu pensava nisso o tempo todo. Um dia, saí na chuva pensando no emplasto, peguei uma corrente de ar e fiquei doente.
Nos últimos dias, recebi uma visita especial: Virgília. Ela já tinha cabelos brancos, mas ainda era bonita. Anos antes, nós tínhamos sido amantes. Ela ficou pouco tempo, segurou a minha mão e foi embora.
Antes de morrer, tive um delírio muito estranho. Primeiro, virei um livro antigo. Depois, um hipopótamo me levou numa viagem até a origem dos séculos. Lá encontrei uma mulher enorme, a Natureza. Ela me mostrou a história inteira da humanidade passando muito rápido, com todas as suas guerras, ambições e misérias. Quando acordei do delírio, logo depois, morri.
Agora vou contar a minha vida desde o começo. Nasci em 1805, numa família rica e vaidosa. Meu pai gostava de dizer que os Cubas eram uma família nobre, mas isso não era verdade: o primeiro Cubas foi um tanoeiro, um homem que fazia barris.
Quando eu era menino, todos me chamavam de “menino diabo”. Eu era mimado e mau. Quebrava as coisas, contava mentiras e maltratava as pessoas. Um dos meus divertimentos era montar nas costas de Prudêncio, um menino escravizado da casa. Eu batia nele com uma varinha, e ele, de quatro no chão, servia de cavalo, sem reclamar. Meu pai e minha mãe achavam graça em tudo o que eu fazia.
O menino é pai do homem, diz o poeta. Eu cresci assim: acostumado a ter tudo o que queria.