Rio de Janeiro, uma sexta-feira de novembro de 1869. Rita, uma mulher bonita, conversava com um rapaz chamado Camilo. Camilo estava rindo dela. Por quê? Porque, no dia anterior, Rita tinha ido a uma cartomante, uma mulher que lê o futuro nas cartas.
— Pode rir — disse Rita. — Os homens são assim, não acreditam em nada. Mas eu fui, e ela adivinhou tudo. Antes de eu falar, ela disse: “A senhora gosta de uma pessoa.” Depois disse que eu tinha medo de que você me esquecesse. Mas disse também que isso não era verdade.
— Ela errou! — disse Camilo, rindo.
— Não diga isso, Camilo. Você sabe como eu ando preocupada por sua causa. Não ria de mim.
Camilo pegou as mãos dela e ficou sério. Jurou que gostava muito dela. Disse que os medos dela eram medos de criança. Depois disse que era perigoso ir a essas casas. Vilela, o marido de Rita, podia descobrir.
— Não se preocupe — respondeu Rita. — Tive muito cuidado. A casa da cartomante fica aqui perto, na Rua da Guarda Velha, e não passava ninguém na rua.
Camilo não disse mais nada. Não queria tirar as ilusões dela. Quando era criança, ele também acreditava em muitas coisas, porque a mãe dele ensinava. Mas aos vinte anos ele parou de acreditar. Agora Camilo não acreditava em nada. Ele não tinha argumentos; só levantava os ombros e seguia em frente.
Os dois se despediram contentes. Rita tinha certeza de que Camilo a amava. E Camilo gostava de ver que Rita corria riscos por ele.
Mas quem eram essas três pessoas? Vilela e Camilo eram amigos desde a infância. Vilela estudou Direito e foi trabalhar como juiz numa província longe do Rio. Camilo virou funcionário público. No começo de 1869, Vilela voltou para o Rio de Janeiro. Ele estava casado com uma mulher bonita e um pouco tonta: Rita. Vilela abriu um escritório de advogado, e Camilo encontrou para ele uma casa no bairro de Botafogo.
— É o senhor? — disse Rita quando conheceu Camilo. — Meu marido fala sempre do senhor!
Rita tinha trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vinte e seis. Vilela era sério e parecia mais velho. Camilo, ao contrário, era ingênuo. Não tinha experiência da vida.
Os três ficaram muito amigos. Pouco depois, a mãe de Camilo morreu. Vilela cuidou do enterro e dos papéis. Rita cuidou do coração de Camilo, e ninguém fazia isso melhor do que ela.
Camilo nunca soube como chegou ao amor. Ele gostava de passar as horas ao lado de Rita. Os dois liam os mesmos livros e iam juntos ao teatro. Camilo ensinou xadrez a ela, e eles jogavam à noite. Rita olhava muito para ele. No aniversário de Camilo, Vilela deu a ele uma bengala cara. Rita deu só um cartão com poucas palavras escritas a lápis. Mas Camilo não conseguia parar de olhar para aquele cartão. Então ele entendeu o próprio coração.
Camilo quis fugir desse amor, mas não conseguiu. Rita chegou cada vez mais perto dele, e logo os dois eram amantes. Camilo sentiu medo, vergonha e desejo, tudo ao mesmo tempo. Mas a luta foi curta. Vilela não desconfiava de nada e continuava amigo dos dois.