No sertão de Mato Grosso, perto da vila de Sant'Ana do Paranaíba, havia campos enormes, rios, palmeiras e estradas de terra quase vazias. Por uma dessas estradas viajava, no seu cavalo, um rapaz chamado Cirino.
Cirino tinha vinte e poucos anos, cabelos e barba pretos e um rosto simpático. Ele não era médico de verdade. Tinha estudado um pouco de farmácia e tinha alguns livros de medicina. Mas no sertão não havia médicos, e as pessoas o chamavam de “doutor”. Ele andava de fazenda em fazenda, curando febres e doenças com os seus remédios.
Um dia, no caminho, Cirino encontrou um homem a cavalo: Martinho dos Santos Pereira, um sitiante, dono de uma pequena fazenda. Pereira era um homem do sertão, desconfiado e orgulhoso, mas hospitaleiro. Quando soube que Cirino era “doutor”, ficou contente.
— O senhor chegou na hora certa! A minha filha está doente, com maleita, uma febre que vem e volta. Venha para a minha casa.
No caminho, Pereira explicou as suas ideias sobre as mulheres:
— Mulher, doutor, é coisa perigosa. Tem que ficar dentro de casa, longe dos olhos dos homens. A minha filha já está prometida. Vai se casar com o Manecão, um vaqueiro forte e trabalhador. Ele foi buscar gado longe, mas logo vai voltar.
Chegaram à casa de Pereira, uma casa simples, de barro e telhado de palha. Pereira apresentou Cirino a um homem muito pequeno, um anão mudo chamado Tico. Tico olhou para o visitante com olhos desconfiados. Ele vigiava a casa e a moça como um cachorro de guarda.
À noite, Pereira levou o doutor até o quarto da filha. Era um quarto escuro, iluminado só por uma vela. Na cama, deitada, estava Inocência.
Cirino ficou sem palavras. Inocência tinha dezoito anos, longos cabelos pretos, pele pálida e olhos grandes, escuros e tristes. Mesmo doente, era a moça mais bonita que ele já tinha visto.
Cirino examinou a moça, com o pai olhando cada gesto. Receitou um remédio para a febre. Quando saiu do quarto, o seu coração batia forte. Ele tinha se apaixonado.