Há muito tempo, na vila de Itaguaí, perto do Rio de Janeiro, morava um médico chamado Simão Bacamarte. Ele era o maior médico do Brasil e de Portugal. Tinha estudado em Coimbra e em Pádua. O rei queria que ele ficasse em Portugal, mas Bacamarte respondeu:
— A ciência é o meu único trabalho. Itaguaí é o meu universo.
Então ele voltou para Itaguaí e passou a viver só para a ciência. Aos quarenta anos, casou com Dona Evarista, uma viúva de vinte e cinco anos. Ela não era bonita nem simpática. Um tio de Bacamarte ficou surpreso com a escolha. O médico explicou: Evarista tinha boa saúde, comia bem, dormia bem e tinha ótima visão. Por isso, podia dar a ele filhos fortes e inteligentes. E, como não era bonita, ele não ia perder tempo olhando para ela em vez de estudar.
Mas Dona Evarista não teve filhos. O médico esperou três, quatro, cinco anos. Depois, mergulhou ainda mais no estudo. E uma parte da medicina chamou especialmente a atenção dele: as doenças da mente, a loucura.
— A saúde da alma é o trabalho mais digno de um médico — disse ele.
— De um verdadeiro médico — completou Crispim Soares, o boticário da vila e grande amigo dele.
Naquele tempo, Itaguaí não cuidava dos loucos. Os loucos furiosos ficavam trancados em casa. Os loucos calmos andavam soltos pela rua. Bacamarte quis mudar isso. Pediu à câmara, o governo da vila, licença para construir uma grande casa e tratar ali todos os loucos de Itaguaí e das vilas vizinhas.
A ideia causou muita surpresa. Colocar todos os loucos na mesma casa? Muitos acharam que isso já era um sinal de loucura. O padre Lopes, vigário da vila, foi falar com Dona Evarista:
— Leve o seu marido para passear no Rio de Janeiro. Estudar sempre, sempre, não faz bem para a cabeça.
Dona Evarista ficou assustada e falou com o marido. Mas Bacamarte entendeu tudo e sorriu. Foi à câmara e defendeu a sua ideia tão bem que os vereadores aceitaram. Criaram até um imposto para pagar o tratamento dos loucos pobres: quem quisesse enfeitar com penachos os cavalos de um enterro tinha de pagar.
— Esses cálculos não servem para nada — disse um vereador. — O doutor Bacamarte não vai conseguir nada.
Ele estava enganado. O médico construiu a casa na Rua Nova, a rua mais bonita de Itaguaí. A casa tinha cinquenta janelas de cada lado, um pátio no centro e muitos quartinhos para os doentes. As janelas eram pintadas de verde, uma cor nova na vila. Por isso, a casa recebeu o nome de Casa Verde.
A inauguração durou sete dias, com festas enormes. Veio gente de todas as vilas e até do Rio de Janeiro. Dona Evarista vestiu sedas, joias e flores. Todos visitavam e elogiavam a feliz esposa do grande homem. Depois de sete dias, as festas acabaram. Itaguaí tinha, finalmente, uma casa para os loucos.