第1章,共3章 · A2 · 简单
Um anúncio no jornal
懂爪哇语的人
Uma vez, numa confeitaria do Rio de Janeiro, eu estava conversando com o meu amigo Castro. Eu contava a ele as mentiras que já tinha inventado na vida para ganhar dinheiro. Em Manaus, por exemplo, eu tinha sido feiticeiro e adivinho. Castro ouvia tudo calado e feliz.
— Você tem uma vida muito engraçada, Castelo! — disse ele.
— Só assim dá para viver. Ter um único trabalho, sair de casa sempre à mesma hora... isso é muito chato. Imagine que eu já fui professor de javanês!
— De javanês? Quando?
— Antes de ser cônsul. Aliás, eu virei cônsul por causa disso.
— Então conte como foi. Quer mais cerveja?
— Quero.
Pedimos outra garrafa, enchemos os copos, e eu comecei a contar.
— Eu tinha chegado ao Rio havia pouco tempo e estava muito pobre. Mudava de pensão em pensão, porque não podia pagar o aluguel. Um dia, li este anúncio no jornal: “Precisa-se de um professor de língua javanesa.” Pensei: “Aqui está um emprego sem muitos candidatos!” Eu não sabia nada de javanês, mas comecei a me imaginar professor, com dinheiro no bolso.
Sem pensar muito, fui à Biblioteca Nacional. Lá, pedi uma grande enciclopédia e li o artigo sobre Java. Aprendi que Java era uma grande ilha da Ásia, uma colônia holandesa. Aprendi também que o javanês tinha uma literatura importante e um alfabeto antigo. Copiei esse alfabeto e a pronúncia das letras.
Passei o dia andando pelas ruas e repetindo as letras. Nos jardins, eu escrevia as letras na areia para não esquecer. À noite, entrei em casa sem fazer barulho, porque não queria encontrar o dono da pensão. Estudei no quarto até de manhã. No outro dia, eu sabia o alfabeto inteiro. Achei que o javanês era a língua mais fácil do mundo!
Quando saí, o dono da pensão, um português, estava na porta.
— Senhor Castelo, quando vai pagar a sua conta?
— Logo, logo. Tenha paciência. Vou ser professor de javanês.
— E o que é isso, Senhor Castelo?
— É uma língua que se fala lá para os lados do Timor. O senhor sabe onde fica?
O homem esqueceu a minha dívida na mesma hora. Disse, orgulhoso, que achava que eram terras de Portugal, perto de Macau. E me olhou com respeito.
Animado, respondi ao anúncio. Dois dias depois, recebi uma carta. Eu devia ir falar com o doutor Manuel Feliciano Soares Albernaz, Barão de Jacuecanga, na Rua Conde de Bonfim. Até lá, continuei estudando. Aprendi o nome de alguns autores, duas ou três regras de gramática e umas vinte palavras.
Fui a pé, porque não tinha dinheiro para o bonde. A casa do barão era enorme e velha. As paredes estavam sem pintura e o jardim estava cheio de mato. Um criado muito velho, de barba branca, abriu a porta. Na sala havia retratos antigos e um bonito vaso de porcelana. Tudo ali parecia cansado e triste.